17 maio 2012

O crime do sucesso


 Desde que obteve êxito em identificar quem obteve as fotos de Caroline Dieckmann, a Polícia Federal tem recebido críticas. É um tanto quanto engraçado. Afinal, eles fizeram o trabalho deles com velocidade e eficiência, o que mais você quer que a polícia faça senão o trabalho dela de forma correta e eficiente?

Entendo que nossa polícia é sim deficiente, a impunidade é crescente e evidente, principalmente nos altos escalões da sociedade. Os criminosos do colarinho branco ficam por muitas vezes impunes, mesmo quando expostos. Mas se o sistema é falho em um âmbito, por que é errado que ele funcione em outro?

Dieckmann é uma cidadã brasileira, com os mesmos direitos que eu e você. Mas é evidente que por sua profissão ela possui uma exposição muito maior, qualquer conteúdo de sua vida privada que seja divulgada ganhará um volume de atenção e mídia muito superior a outra mulher que seja bem sucedida numa área de atuação que não envolva mídia. É justo e notório que quem espalhou tal conteúdo de foro íntimo tenha atingido o ganha-pão da atriz, sua imagem.

Há quem goste de dizer que ela mereceu, pelo fato de ter produzido tal conteúdo em foro íntimo. Há quem diga que isso não aconteceria com outras atrizes que expõem sua nudez nas revistas, se ela tivesse feito o mesmo, teria ganhado pelo menos dinheiro. Mas Dieckmann não quis usar sua nudez como forma de sustento, preferiu construir outra imagem para si, fazendo de sua ação como atriz seu meio e não seu corpo. Aquilo que era sua sensualidade, sua nudez, seria de aproveito íntimo.

O crime de Dieckmann foi a intimidade com seu conjugue. Ela realmente gerou a possibilidade para exposição ao produzir o conteúdo e hospedá-lo, mesmo que temporariamente, em seus e-mails. Mas em todo esse processo, tudo estava restrito ao foro íntimo e isso foi violado. Quando isso ocorreu, além da privacidade, o dano à imagem, há o impacto a família. Ela é esposa, é mãe, é filha. Isso atinge outras pessoas.

Carolina nunca quis que sua imagem fosse exposta desta forma. Por mais que nossa cultura trate de forma natural essa nudez exposta de forma pública e tenha um comercio vivido e estruturado. Porém, fazer parte deste mercado é uma escolha. Fazer de sua privacidade um negócio é uma escolha pessoal. E não fazer de sua privacidade um negócio não significa não fazer uso dela. Então, neste ponto, sim, isso é um violação da liberdade da atriz e sua família.

Por isso, era fundamental uma ação ágil e correta da Polícia Federal. A vida de várias pessoas estava sendo prejudicada por uma clara ação ofensiva e criminosa. O conteúdo estava na web, sendo divulgado e ganhando exposição colossal. Conteúdo amador de cunho sexual ganha exposição, claro, mas não com a amplitude que recebe o de alguém com grande exposição de mídia. O anonimato conferido as pessoas fora da mídia faz com que um deslize como esse de outra pessoa não seja tão impactante como para alguém que vive de sua imagem.

Então, a revolta de pessoas comuns cresce, pois por Dieckmann foi feito o que precisava ser feito. O sentimento de que o mesmo não teria sido feito por uma pessoa “comum” ou que não havia empenho da PF em outros casos é compreensível, mas não quer dizer que seja justo.

A Polícia Federal não julga, não dá veredito. Ela executa ações mediante a Justiça ou age a partir de investigações. Porém, o cumprir da lei só pode ser realmente executado pela Justiça. A Polícia pode até prender, mas quem dá a pena é o Tribunal.

Pode faltar qualificação, pode faltar recurso, mas não acredito em omissão da polícia, seja no tocante aos corruptos ou à violação dos direitos de privacidade de Dieckmann. Se o sistema como um todo agiu de forma correta em um caso e não no outro, não se deve criar irritação com a ação correta, mas por que a ação não é bem feita na outra.

Se nossos corruptos estão impunes, devemos nos revoltar quando a justiça é feita em um caso menor? Não acredito que seja esse o caminho.

É evidente que temos o direito e devemos nos indignar com a impunidade de criminosos e gestores públicos corruptos. Porém, isso não quer dizer que a justiça esteja errada em ser ágil e direta na manutenção do direito individual de uma pessoa. Seja ela notória ou não. Nesse caso, minha impressão é de um bom trabalho, feito de forma que não é realizada nem mesmo em países com problemas mais intensos com Hackers.

Não podemos tratar como um crime a operação policial bem sucedida. Pois, no momento que a necessidade de preservação do direito seja minha ou sua, a expectativa deve ser de uma ação eficiente e correta, mesmo que o caso seja de aparente ínfima importância coletiva e grande relevância particular.

2 comentários:

Ana Raquel disse...

Hey Paulo,

concordo com você na questão da polícia ter feito o trabalho dela, afinal ela existe pra isso, mas realmente é incômodo ver a velocidade como esse caso foi solucionado e tantos outros (muitas vezes mais simples) não o são.
Acredito que na verdade o que mais incomodou tantas pessoas não foi o fato da rapidez com a qual a PF agiu, mas sim a visibilidade que a mídia deu pra isso. Quando vi a entrevista no JN essa semana desacreditei, já não tinha bastado o último bloco do Fantástico ter dispensado tempo para o assunto um dia antes?
Reflexões a parte, gosto muito dos seus textos (again)!
Beijos, Ana Raquel

Paulo Rhedy disse...

Mais uma vez, Obrigado Ana!

Sim, a questão da visibilidade da mídia é outro caso... Acho que dá até outro texto. rs