02 maio 2012

Réquiem do ego insólito


Às vezes me pergunto quando foi que o mundo desandou. Onde nasceu o carma que fez que nossa humanidade se colocasse em decomposição? O que nos faz seres nefastos e indiferentes aos nossos iguais? Por que da gritante necessidade de assepsia social?

Nossa organização social básica vem da formação e elevação do ego sobre outros indivíduos. A primeira organização básica de seres humanos, desde nossa gênese, é privativa. A liderança familiar era exercida por um homem.

O filho mais velho, o varão primogênito, receberia maior importância que os demais da herança de seu progenitor, além do posto de liderança familiar. Era elevado sobre os demais no único e prévio princípio de casta. Não era necessariamente o mais capacitado, com maior potencial, apenas o privilegiado pela ordem de geração. O privilégio da casta.

Desde nossa formação básica o nosso princípio social é elevar-se sobre os demais. Desenvolvemos o sentimento de posse e a necessidade de valoração sobre outros indivíduos para o reconhecimento de nossa própria existência. Isso ultrapassa os valores absorvidos do capitalismo, é a necessidade humana de diferenciação dos demais.

Sob essa via, todas as possibilidades de um indivíduo se diferenciar e sobrepor a outro indivíduo foram desenvolvidas. O impulso da mais natural a mais nefasta forma de segmentação social foram criadas.

Qual o cerne do impulso para desenvolver xenofobia? Antissemitismo? Homofobia? Higienização social? É fazer a si mesmo reconhecido como diferente ou não permitir que o outro se diferencie, não aceitar a capacidade de outro indivíduo de não seguir os padrões básicos de normalidade para que o meu ego não seja sobreposto.

É deste centro que temos movimentos contra uma estação de metrô no centro do bairro de Higienópolis, uma associação de mulheres paulistanas da elite, cidadãos sendo chamados de “gente diferenciada”, camarotes para castas políticas – como retratado no texto do Andy.

Aquilo que há de mais gritante é o impulso de ser algo apenas para diferenciar-se de forma qualificada de outro. Há uma necessidade de aplauso, há um vício voraz na sensação de superioridade. O capitalismo, na realidade, se alimenta desse desejo inquietante que temos de ser alguém através do que temos, do que possuímos. O cerne do capitalismo não é ter posse, mas como a posse nos qualifica parente aos outros, como ela nos faz sentir em referência aos demais.

A grande chave é tornar a posse algo de valor, atribuir sensação de exclusividade. Usuários do Iphone e Ipad se sentiam superiores ao usar o Instagram, pois esse recurso só era disponibilizado para hardware da Apple. Com a compra do recurso pelo Facebook, houve a disponibilização para aparelhos com sistema Android. Com isso, a massa de usuários que teria acesso ao recurso cresceria de forma considerável.

Usuários dos produtos Apple começaram a se manifestar contrariamente a liberação do recurso para outra plataforma, com o pretexto que “gente diferenciada” começaria a utilizar o Instagram e ele seria inundado por conteúdo “inapropriado”.

Contas em Tumblr foram criadas para satirizar essa invasão dos “pobres” ao Instagram. Pura manifestação de imbecilidade, egocentrismo, arrogância e prepotência.

Exemplos de conteúdo "útil"
de usuários do Instagram
O Instagram por natureza já era uma rede de conteúdo raso e irrelevante. Fotos do cotidiano de gente completamente desinteressante que não retransmite em suas publicações nada de importante na imensa maioria das postagens. As redes sociais de conteúdo pontual e curto não têm por natureza a razão de utilidade em seus conteúdos. É mera convivência social.

Pifiamente, qualquer conteúdo que seja fora da realidade da pessoa não existirá em sua rede, pois a verdade é que a rede social existe para você ter contato com pessoas que são do seu círculo social, pessoas da sua área de convivência. O conteúdo que você consome nessa rede é das pessoas que você se relaciona. O conteúdo que você recebe foi construído e designado por você ao construir sua relação virtual com essa pessoa.

Toda essa turba odiosa pelo uso do recurso por mais pessoas na verdade é pela desconstrução da exclusividade. Era a raiva da odiosa desconstrução do seu sentimento de status pelo patético fato de ter comprado um aparelho de celular ou tablet específico. O status que ostentava pela marca – usar Instagram era sinônimo de ter Apple e ter Apple era uma forma de demonstrar status – havia sido corrompido por aquilo que esses usuários consideravam ser a oferta do mesmo recurso aos pobres.

Usuários IOS e Android em pé de guerra?
É evidente que o Android possibilita a popularização de recursos. O sistema está disponível em aparelhos mais acessíveis e possuí um volume muito superior de aplicativos grátis. Porém, há aparelhos com o sistema Android que possuem preço de mercado superior ao Iphone, por exemplo.

A diferença é que esses aparelhos não ostentam o status. Seus usuários, nesse momento, o preferem por recursos oferecidos ou gosto, não pela imagem que ele acrescenta. Não que isso torne esses usuários melhores, isso só faz quem usa um Iphone por status uma pessoa sugada pelo sistema de imagem e ego, ou seja, uma pessoa facilmente manipulável pelo sistema.

Churrasco de gente diferenciada em Higienópolis
Reação ao réquiem do ego insólito
Somos seres corrompidos pelo desejo de nos elevarmos sobre os nossos iguais sobre parâmetros fúteis e efêmeros. Criamos um sistema cruel apenas para alimentar o ego de uma seleta casta que está lá pelo único privilégio de ter nascido nesta posição. Odiamos o nosso igual desfavorecido em aspectos sociais a invés de lutar para igualdade de condições de sobrevivência dessas pessoas. É um retrato amargo e patético como espécie.

Somos a espécie que luta contra a sobrevivência de si mesma. O ser humano é o único ser que reclama para si a existência de Deus e a única espécie nesse mundo que age como se não existisse um.

24 abril 2012

Quem perdeu o limite, o Pânico ou você?



Foi grande o barulho sobre o Pânico na Band ter raspado o cabelo de uma de suas dançarinas. De fato, o programa conseguiu uma medição de audiência pelo Ibope impressionante para a emissora que está; foram 12 pontos.

Logo após passar a máquina na cabeça da Panicat Babi começou o frisson no Facebook e no Twitter. O Pânico normalmente já é Trendind Topic no Twitter, pois a base do seu público é jovem e está na rede social. A maior parte de suas campanhas está ligada ao Twitter e essa ferramenta foi o termômetro desta ação, foi dali que o programa retirou a “prenda” para sua colaboradora.

Porém, minha atenção foi captada pelas fotos com a Panicat tendo sua cabeça raspada que circularam pelo Facebook. Frases de indignação, depoimentos de quão assustadas as pessoas estavam na busca do Pânico por audiência. A frase mais recorrente é que o Pânico perdeu o senso de limite, não havia mais noção nas ações do programa.

O grande negócio está que o Pânico sempre se propôs a essa conduta anárquica, sem limitações, repleta de controvérsias. O Pânico não tem o objetivo de chocar, mas de promover o bizarro que você quer ver. O espetáculo deste domingo foi o grito da multidão que clamava. A Panicat aceitou e recebeu bem pelo seu papel de “gladiadora” moderna e foi o circo que o programa precisava para rentabilizar seus ganhos expandindo sua audiência.

Você pode achar o que aconteceu ridículo. Eu também acho. Considero uma ação completamente idiota. A maioria das mulheres que raspa o cabelo o faz por questões de saúde. Não é uma imagem com a qual se deva brincar.

Mas o Pânico está ai exatamente para isso. Para fazer o que ninguém mais teria coragem, por ser algo completamente estúpido e idiota. E esse programa fará isso, pois é o circo que você quer ver. Essa repercussão já era esperada por eles. Já sabiam que o ódio de alguns viria, mas o escárnio e diversão de um grande número também aconteceria.

O Pânico nada mais é que um reflexo do que você quer ver no seu lado mais baixo, como audiência. Querendo ou não, isso faz parte de nossa sociedade. Esse é o entretenimento preferido de nossa nova geração. Essa é a grande cultura que ela ingere. A nossa massa vangloria a incultura e santifica hediondo. Nossa massa não tem limites.

E nisso o Pânico foi genial. Pois seus produtores sabem do que vivem e fazem o que é preciso para terem seu ganho, seu sucesso. O Pânico não tem limites, mas não é por si próprio; é porque nós, sua audiência, não temos. No fim, o programa nada mais é que mero reflexo.

Quando o CQC subiu num pedestal...


Quando o CQC foi ao ar pela primeira vez, eu fiquei impressionado. Estava na faculdade de comunicação social e aquilo era exatamente o sonho de qualquer amante do jornalismo diferenciado. Eram perguntas acidas, repletas de ironia e inteligência. A mesmice da televisão havia se dissipado em quadros de utilidade pública.

Celebridades ficavam sem respostas frente a perguntas retóricas. Políticos ficavam sem chão quando deparados com os questionamentos que todos gostaríamos de fazer. Aquele CQC não tinha respeito por quem não merecia nenhum.

Mas com o passar do tempo, o desgaste ocorreu. O programa evoluiu pela pressão comercial, seu integrante mais medíocre – aquele que não acrescenta absolutamente nada no aspecto jornalístico e intelectual – Marco Luque passou a ter mais espaço e importância por sua rede de contatos publicitários. O programa passou a ter uma tendência cada vez mais amarrada a interesses comerciais frente à integridade de seu conteúdo.

Esse é um movimento natural em toda mídia. O problema é que isso interfere diretamente na qualidade do programa. Isso culminou na saída de Rafael Bastos do quadro do programa e da Rede Bandeirantes, consequentemente. Não que a saída de Bastos seja por si a queda de qualidade, pois com o próprio Rafael essa descendente ocorria.

Muitas coisas contribuíram para que o programa se envaidecesse e desvirtuasse. O CQC passou a ganhar prêmios como programa de comédia, de humor. Jamais foi reconhecido como programa jornalístico pelo meio. Passou a ser ostensivamente comparado ao Pânico. Isso claramente influenciou na linha do programa.

Os quadros com “brincadeiras” e abordagens completamente irrelevantes passaram a ser mais frequentes. Não há jornalistas no CQC, hoje, há apenas humoristas. Nenhum deles se porta como um profissional de mídia com consciência e responsabilidade de interesse público. Há um exagero no tratamento de questões que mostra total despreparo e total tendência para demonizar entrevistados.

Isso ficou evidente nas matérias feitas pelos dois novos “repórteres”. Ao dar de ombros para um entrevistado de Alagoas durante uma entrevista, um deles mostrou claramente a total falta de respeito pelo entrevistado e por um tratamento isento para manifestação do entrevistado. Tudo que esses dois senhores têm buscado é deixar os objetos de suas “entrevistas” como personagens caricatos para suas piadas e ofensas.

A explosão deste fato gritante ocorreu na semana passada, durante a visita de Hillary Clinton, atual Secretária de Estado dos Estados os Unidos da América, ao Brasil. Era uma visita oficial, tratando de assuntos extremamente delicados que exigiam alta postura diplomática.

Qualquer pessoa que tenha o menor trânsito no meio da comunicação sabe a dificuldade que é conseguir que o governo norte-americano conceda uma coletiva de imprensa durante uma visita oficial deste teor e situação. E quando isso ocorre, há toda uma organização e decoro que são utilizados por se tratar da relação direta entre representantes de distintas nações. Ou seja, o que acontece num evento desses pode também influenciar a relação diplomática e a futura realização de coletivas de representantes desse país visitante.

A brincadeira realizada pelo “repórter” Maurício Meireles constrangeu a comitiva estadunidense e os representantes brasileiros. A insistência do membro do CQC em entregar seu presente gerou desconforto e sim, pode ser a causa de futuras dificuldades para toda imprensa brasileira em questões de cobertura internacional.

Meireles poderia ter feito perguntas inteligentes. Poderia ter desconcertado Hillary confrontando com questões sérias e falhas da gestão de Obama. Mas preferiu balançar uma máscara de carnaval e agir como uma criança mimada.

A ação por si só já seria de terrível embaraço. Porém, ao exibir a matéria, o CQC cortou todo o constrangimento, confusão e revolta causada por seu repórter. E não se contentou com isso. Marcelo Tas, a quem eu por muito tempo tive admiração, me decepcionou profundamente.

Tas ironicamente afirmava que o CQC não possuía poderes para afetar relações diplomáticas. Mas Tas sabe que relações diplomáticas são afetas pelas amenidades mais absurdas e irrisórias. Tas não é ingênuo. Tas retrocedeu de um jornalista inteligentíssimo para um mediador de comediantes. Retrocedeu ao dizer que foi uma brincadeira inocente o que houve e que nenhum constrangimento ocorreu. Que a revolta de jornalistas foi à toa.

Tas reclamou do posicionamento do Sindicato dos Jornalistas de Brasília de pedir a restrição da credencial do CQC para eventos políticos. Mas quando reclama desse posicionamento, Tas ergue o CQC ao status de programa jornalístico e coloca sua censura como uma ameaça, a abertura da brecha para censura de todo o jornalismo.

Porém, Tas em seu discurso esquece de algo crucial; para que a censura ao CQC tenha potencial de censura jornalística, é preciso que o CQC em algum momento volte a produzir jornalismo. Independente de interesses comerciais. Independente do quadro de repórteres e apresentadores.

Hoje, o CQC é meramente um programa de humor. E um programa de humor medroso. Pois tenta a alcunha de audacioso, mas não tem coragem de ultrapassar qualquer limite, como tem o Pânico. Tenta pegar para si a estirpe de humor inteligente, mas tudo que consegue é ser agressivo e arrogante. Tenta ser inovador e diferenciado, mas tudo que tem feito são as mesmas piadas velhas.

A tristeza está que o CQC subiu num pedestal e se perdeu de sua grande qualidade, que eram os pés firmados no chão de quem simplesmente queria dizer o que precisava ser dito. E infelizmente hoje diz qualquer coisa apenas para ser ouvido.

23 abril 2012

Público ou coletivo

Nosso sistema de transportes é público apenas na gestão
Eram 15h40 de domingo, um tempo irritante que não se decidia entre um calor tímido e chuviscos de uma chuva gélida. O ponto de ônibus do início da Avenida Tucuruvi estava quase vazio, com apenas seis pessoas.


Eu não estava bem vestido, pelo contrario, estava bem do avesso, depois de um sábado a noite especial. O domingo parecia vadio e preguiçoso, apenas me convidando a recolher ao ócio.


Mas antes disso, precisava pegar o costumeiro ônibus para casa. Estava lá eu, sentado no banco do ponto, ao meu lado um senhor com um livro e do outro uma senhora. Em pé, meio distantes, estavam três homens. Sujos, magros, cabelos bagunçados, barbas sujas, magros, mal agasalhados e sem um centavo no bolso.


Passa o primeiro ônibus. Era um que seguia sentido à Cantareira. Eles dão sinal, ônibus para. Abre a porta e um deles se aproxima e conversa com o motorista. Ao notar o teor da conversa, o motorista fecha a porta com o homem no primeiro degrau. O homem pedia para ir até o final da avenida, três pontos à frente. Mas não tinha dinheiro para isso. Ele e os outros dois amigos.


Outro ônibus passou e nem ao menos parou para ele. Um dos amigos se revoltou. Esbravejava que era uma vergonha. “Transporte público para quem? Nós não temos transporte público!”.


O corajoso triplamente rejeitado pelos motoristas sorriu. E apenas pediu calma ao amigo. Apenas murmurou “é coletivo, não público”. Um homem simples, aparentemente, com o domínio muito simples do que é o braço do nosso serviço público.


Uma troca de frases despretensiosa, carregada com uma leitura clara da realidade. A única característica dos nossos serviços públicos é a de serem organizados pelos nossos órgãos e instituições do Estado. Mas não são públicos. Não são serviços disponíveis para todos, não é algo aberto de forma irrestrita a qualquer cidadão. É um serviço coletivo, é uma divisão da necessidade de locomoção de um grupo de indivíduos. E possui um pré-requisito para participação: A passagem.


Você precisa participar de uma forma de obter o direito a utilização do serviço coletivo. Para isso, paga uma passagem. Veja bem, você já pagou o imposto, de alguma forma. Seja pelo consumo ou outras vias que o governo possui de tributar o cidadão. Você já possibilitou a existência desse serviço. Porém, ele é um serviço particular para um coletivo de pessoas: aqueles que pagam a passagem.


Os três homens precisam se deslocar por uma pequena distância, para o coletivo. Porém, para o estado que se encontravam, era uma longa distância para o estado que se encontravam. Principalmente levando em consideração o estado debilitado de um deles, que havia acabado de sair de uma internação e estava visivelmente abatido.


Eu pude seguir meu caminho, pois faço parte do coletivo. Mas por que pagamos um preço tão algo por uma coisa pública que, de fato, não existe?

17 novembro 2011

Leve crônica de aspargos

Às vezes esquecemos a vida, mas não por falta de memória. Esquecemos por aquilo que invade o peito e explode, deixando a razão e a emoção em cacos.

Você se perde, vê um mundo psicodélico e assustador, vê-se só, numa situação constrangedora, sente-se humilhado, vê que todos apontam e riem de você, vê as pessoas que ama indo embora, vê seus sonhos ruindo, vê um mundo horrível do lado de fora da janela.

Você tem medo, tem que se esconder embaixo do cobertor, entra em desespero, sente na pele o clamor daquilo que mais teme sorrindo defronte ao seu nariz. O coração palpita com o furor do momento, num instante tudo se apaga e o juízo se manifesta na nossa verdadeira face.

Até que passa, você olha para os lados e vê; sorri e outra vez sobrevive, segue, progride como outro alguém diferente do que era antes. Mas, mesmo assim, ainda é você. A batida do coração pode ter desacelerado, mas a essência da ação ou ausência dela que você teve persiste em ser você.

Eu me esquadrinho num vasto leque de incompletude. Eu refugo, me intimido por aquilo que mais desejo e admiro. Quando eu contemplo, fico desconcertado. O que há de melhor em mim se rende a pureza de um momento em que eu deveria agir, mas tudo que me resta é estar rendido ao mais belo sorriso que já vi.

Olhar para o canto e ver o gato passar. Ele se espreguiça, roça a parede da poltrona, olha pros lados e finge um miado, mas não, foi apenas um leve bocejo, até o gato está cansado demais para miar!

“Eu estaria lá por você, mas eu estou muito cansado para me levantar da poltrona macia e desligar a tevê! Isto aqui está bom demais para que eu perca meu tempo em viver!”

Eu poderia me envolver novamente, poderia beijá-la, poderia amá-la mais do que amei todas as outras, eu poderia até morrer por você se fosse preciso, mas não, eu prefiro jogar tudo isso fora e jogar um pouco mais de play station, pegar uns biscoitos no pote e engordar mais uns dois quilos.

Eu poderia ir atrás de você, mas eu prefiro me esconder aqui em casa, atrás do enfeite da mesinha ou talvez em baixo da escrivaninha, quem sabe em qualquer outro lugar da sala. O que eu não posso é admitir para mim mesmo que eu gostaria é de me esconder em seus braços.

Sou um medroso, um palhaço, tenho medo de admitir a mim mesmo o sentimento! Que homem logrado! Parece mais um cão correndo atrás do rabo... E este nunca alcança, caí ao chão e não compreender por quê! Tapado! O óbvio grita na minha face e eu ignoro o dizer.

Mas por quem sou engando? Conta-me o segredo do meu temor, porque quando eu olho em seus olhos me tremem as pernas, lacrimejam os olhos, suam as mãos, a noção se perde... Não tenho forças para olhar em seus olhos, seu perfume me desequilibra e eu sinto que não estou em lugar nenhum.

Báh! Mais uma vez apaixonado? Não, não o posso! Irei sofrer incontrolavelmente, irei olhar o sol poente e perguntar por qual motivo ele se vai e me deixará só frente a ela. Por quê? O vento sopra e levanta as folhas marrons já mortas, ele ventila as cinzas do dia, leva embora o perfume das flores diurnas, leva a tristeza de um ciclo que se encerra sem me fazer ser o que almejo. Eu desejo fervorosamente o objeto daquele beijo, banhado ao pôr-do-sol de iludir-me na divagação vã. E lá se vai mais uma tarde sem que nada aconteça onde as belas palavras me levam para o mesmo caminho... Que me retorna para onde já estou.

Talvez o salivar da minha boca seja o sinal que o sabor do veneno já está adaptado junto aos meus aminoácidos. Talvez o fato d’eu sentir mais sede dos seus lábios que da própria água já signifique alguma coisa, mas eu não sei, sou só um qualquer jogando palavras cruzadas. Qual o nome da Primeira Deusa Grega com quatro letras?

Verdades, mentiras, todas sendo lavadas na mesma vasilha, serão separadas como feijão. Nosso juízo, infelizmente, baila vadio na valsa de não ver. Em seus passos trocados, certas verdades caem no lixo, algumas mentiras param na panela e depois não entendemos o porquê de nosso feijão estar tão ruim. Vivemos numa dança de critérios aleatórios moldados a comodidades, não em necessidades.

 Eu gosto de olhá-la de longe. Mesmo que me sinta tentado em me aproximar, não irei. É tão confortável ficar aqui admirando, depois reclamando, questionando o céu do por que d’eu nunca ter você aqui, será que você me diz?

Provavelmente não vá precisar, pois eu sei, só não consigo admitir que estou tão acomodado com o platonismo que talvez amar assim seja automático; deixar o amor escapar sem se realizar seja o que eu posso fazer para não permitir que meu sentimento ultrapasse a idealização, para não tirar de você o meu estigma de perfeição.

A minha inércia é a melhor forma de amar você da forma mais bela. Infelizmente, eu tenho medo da dor, da rejeição, da incongruência que não permitiria que nossas imperfeições se fizessem juntas tão belas.

Ás vezes penso em você como um anjo, ás vezes penso em você como uma flor, mas descobri que faltou pensar de verdade em você. Faltou lhe ver como ser humano, faltou tirá-la a perfeição e tratá-la como mulher. Invés de adular a todas as qualidades, faltou amar seus defeitos.

Quando olho seu retrato viajo, viajo nos seus óculos escuros, viajo nos seus lábios, suaves, tentadores e sensuais, viajo tanto que quando vejo que você está presa aos meus pensamentos, você se torna uma constante, é lei irrevogável, meu álibi, meu motivo, minha distração, é aquilo que me faz viver sorrindo enquanto todos estão chorando com o final refrão.

Gosto de olhar para o pôr-do-sol. É uma pena que mal possa vê-lo com tantos prédios ao redor. Perdi o horizonte, o mundo me separa do belo, o concreto, o moderno, comprou-me com o conforto e eu me vendi pela facilidade, agora corro atrás da comodidade, corro para subir sobre quem estiver vacilando abaixo. Troquei a felicidade que vem do esforço pela mentira de sabor palatável.

Você poderia me dizer, eu poderia ouvir, mas estamos muito ocupados com coisas mais importantes. Preferimo-nos a todo esse mundo doente! Prefiro ficar perdido em seus lábios, enroscado em seus braços a discutir política ou as mazelas que haveremos de enfrentar. Visto em seus olhos há um mundo muito mais bonito, visto em seus olhos eu tenho um motivo para ficar aqui sentado por horas e horas, sentindo seu perfume, tocando sua pele, deitar ao chão, sobre tapete bege. Pena que na verdade, você nunca está. Você nunca esteve. E pelo meu estado, você nunca estará.


Ontem derrubei o pote de aspargos, vi mil desenhos se formarem ao chão. Parecia criança deitada no gramado da praça olhando as nuvens para ver com que se pareciam. Com alguns aspargos escrevi seu nome. Logo pensei, quão bobo eu sou. Tolo, apaixonado, um ato ingênuo. O mais infantil dos homens praticava um ato nada mais que ridículo. Logo pensei, quem gostaria de ter seu nome escrito com aspargos?

A todo instante um sonho morre, a cada instante se perde uma oportunidade, a cada olhar pode-se descobrir um pouco que há de gente em nosso âmago. Mas o relógio corre, a vida acelera a maratona, seguimos no ritmo da degola e esquecemos os aspargos no pote quando deveríamos jogá-los ao chão, rasgarmos nosso pedestal e ser intensos pelo puro simples ato de cada dia estarmos vivos, ainda. Queria eu que escrevêssemos juntos nossos nomes com aspargos.

03 novembro 2011

Por favor, não seja um babaca!


Nos últimos dias muitos amigos meus têm agido como verdadeiros babacas. Eu não sou fã de Lula. Nunca votei nele. Muito menos em candidatos do PT. Mas isso não justifica uma militância babaca.

O ex-presidente tem câncer e está recebendo tratamento particular. Desde que se tornou de conhecimento público, iniciou-se uma campanha para que Lula fizesse seu tratamento pelo SUS. Isso é uma tremenda babaquice.

Discordar de alguém politicamente é uma coisa. Outra coisa é agir de forma mesquinha e rancorosa quanto a uma doença grave desta pessoa. Independente do que Lula falou sobre avanços de tratamento público na área da saúde, não é justo para com a sociedade que ele faça uso deste tratamento.

O ex-presidente possui recursos para se tratar pelo sistema particular. E dentro da realidade em que nossa sociedade é construída, o capitalismo, é evidente que o sistema privado de saúde vai ter mais recursos e melhor qualidade de tratamento. E tendo condições de usufruir desse tratamento, Lula deve fazê-lo principalmente por dois motivos:

- Não é válido tirar a chance de alguém com uma doença tão grave de se tratar pelo SUS somente pelo capricho político. O custo de tratamento de câncer é elevadíssimo e para que Lula se trate pelo sistema público, seria necessário que alguém deixasse de ser tratado. Tendo recursos disponíveis para fazê-lo pelo sistema privado, isso seria uma temeridade.

- A opção para tratar uma doença tão agressiva como é um câncer deve ser sempre a melhor opção possível. Somente quem já teve uma pessoa próxima que passou ou foi vitimada pela doença sabe da força de um câncer. Não é algo com o que se possa brincar ou relaxar.

É preciso entender que sim, o Brasil fez avanços no tratamento público de saúde. Isso não quer dizer que ele seja bom como privado. Mas o atendimento público de saúde do Brasil é invejado pelos EUA, por exemplo, onde tudo que é ligado à saúde possui um custo elevadíssimo e possuir seguro de saúde é fundamental para não ser vitimado até mesmo por doenças tratáveis sem precisar arcar com um custo extraordinário.

O Brasil ainda implantou distribuição de medicamentos para o tratamento de uma série de doenças de forma grátis. Temos aqui medicamentos grátis que não há em qualquer país do mundo.

Isso quer dizer que o Sistema Único de Saúde é o suficiente? Não, ele ainda é insuficiente. Mas ele conquistou uma série de avanços. É fundamental também compreender os avanços que a saúde atingiu a âmbito federal, ou seja, aquilo que foi feito para todo o Brasil. E nesse aspecto conquistamos avanços significativos nos últimos 20 anos.

É preciso compreender como a saúde tem se organizado no país. Temos um sistema descentralizado. Isso é facilmente observável pelo maior volume de hospitais estaduais e municipais frente a federais, que são em quantidade muito menor.

O Governo Federal repassa a administração e aplicação da maior parte dos recursos da saúde para Estados e Municípios. Ou seja, se o seu Hospital Público não está bem ou é responsabilidade do Prefeito da sua cidade ou do Governador do seu estado.

É evidente que o governo FHC teve ações mais impactantes na área de saúde que o Lula. Porém, a gestão da saúde não foi ruim. Ele continua sendo defeituosa, mas é superior a da maioria dos países, inclusive de países desenvolvidos, comparando o âmbito público de ambos.

Por isso, ironizar com o câncer de Lula não é apenas deselegante, mas é um atestado de burrice. Você acha que a saúde está ruim? Poderia estar pior. Você queria que ele se tratasse pelo SUS? Se fossem seus pais ou seus filhos a perder o tratamento de câncer no SUS para que ele se tratasse, você realmente acharia isso bom, justo?

Reflita com humildade. Não é uma questão de opinião política, de gosto ou preferência. É uma questão de noção, de caráter. Saiba separar a discordância da pessoa. Não torne a diferença em ódio. Não odeie o homem. Pensamentos cheios de ódio levam a babaquice. Pense, seja inteligente. Discorde com civilidade.