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27 janeiro 2014

Só vive quem fica louco

As mãos estão tão sujas que estão mais que negras, estão piche. Na face, também há traços de graxa que mostram que um banho é coisa que não se vê faz dias. Os corpos magros são de quem come esporadicamente. A gente faz o corre, vai indo no dia até o dia acabar. A gente só quer chegar no final do dia com os nossos trocados. Ai a gente vê o que faz. Ou compra algo pra comer quando alguém quer vender ou arruma algo pra deixar acesso. Tem que ser assim.


São dois irmãos. Um de doze, o mais velho, o outro de nove anos. Durante os dias, ficam na Zuquim, na zona norte de São Paulo, fazendo malabares ou mal lavando parabrisas, arrumando uns seus trocados. Tem dias que arrumam o suficiente para todos comerem. Ficam num grupo de sete garotos, nenhum deles têm mais do que quatorze anos.


A noite a gente passa onde der. Ninguém aqui tem casa. Não mais. Todo mundo fugiu por algum motivo. A gente porque o pai bebia e batia em todo mundo. A mãe fugiu, mas ele não deixou ela levar a gente. Mas a gente deu um jeito e fugiu também. Depois, não sabe mais o que aconteceu. Mas acho que eles devem ter se matado ou algo assim. Mas tanto faz, a gente não importava muito lá mesmo. Hoje, é melhor que antes. Hoje a gente não apanha. E faz o corre que a gente quer. Antes a gente ficava em casa preso, igual bandido.


A gente não vai nesses abrigos (albergues) porque não pode. Menor de rua que vai pra lá não volta. Eles mandam para aquelas casas lá. Se a gente for lá, vão separar a gente. Vão mandar ou de volta pro pai ou pra casa de alguém qualquer ai. A gente não quer. A gente já se vira. A gente não precisa que alguém diga pra gente o que fazer. A gente trabalha aqui, tá vendo? Eu posso limpar o seu carro, é trabalho!


Mas é o corre que eu quero. Eu podia roubar, matar ou traficar, tem um monte de moleque igual nós fazendo isso. Na hora que a gente quisesse podia fazer, sabe? Mas a gente não quer, a gente acha mais legal fazer isso. A gente não precisa de mais agora. A gente come quando quer. Cheira quando quer. Brinca quando quer. Faz o corre quando quer. E não apanha de ninguém porque a gente protege um o outro. A gente aqui é tudo amigo, tudo família. Tamô juntos, tá ligado?


A gente já está um tempo nisso. Ah, tem uns dois, três anos, não sei dizer, mas é mó tempão. Quando está frio? Ah, a gente compra algo pra cheirar, né? Ninguém vende cachaça pra moleque igual nós. Mas pra conseguir droga rola. Traficante não pede RG, né? Daí a gente usa e não sente nada. Quem não usa, apaga e não aguenta. Ou vai pro abrigo e nunca mais volta ou vai pra ambulância e nunca mais volta. O morre mesmo. Só vive quem fica louco, tio.


Mas precisa. Se você cheira (cola), você não sente nada. Você fica igual o super-homem! Pode até tomar uns capote que não dá nada. Daí a gente só pega papelão das lojas por aqui, os crentes sempre dão cobertor pra nós e a gente aguenta bem. Daí tem madrugada que passa uma tia e dá pão, leite. A gente se vira bem no frio.


O que é bom? Bom é o dia que uns tios dão lanche do MC pra nós. Como é pertinho, tem dia que a gente tá com fome e fica lá perto. Daí dá uma chorada e sempre alguém ajuda, dá pelo menos um hambúrguer ou uma batata. Mas o MC não dá nada não. Não deixa nem a gente entrar. Nem quando a gente tem dinheiro. A gente tenta, mas quando entra já enxotam a gente pra fora. Tinha até uns tempos atrás um gerente que era gente boa, ele pedia pra gente esperar do lado de fora e às vezes dava pra gente uns negócios que fizeram errado. Mas ele foi embora daí e ai nunca mais ninguém foi com a cara da gente. Mas também, tudo sujo assim, né? Nada a ver com os playboyzinhos que vão lá.


Não, antes de ir pra rua eu nunca tinha comido MC. Meus pais não saíam com a gente. Não tinha dinheiro, se pá. Meu pai só bebia e ia no jogo. Daí, se o Corinthians perdia, era ruim, porque ele bebia mais e voltava bravo. É por isso que a gente não é Corinthians. Porque quando perdia dava muita raiva, porque a gente já sabia que ia apanhar.


Sim, a gente gosta de jogar bola. A gente até vai jogar ali no parque (da Juventude) às vezes. Junta com uns moleques que vem aqui e joga. É divertido. A gente não joga bem, mas gosta de jogar. Só é chato jogar descalço. Porque de sandália não dá, né? Fica tudo torto, pisa errado, chuta mal. E às vezes machuca o pé. Mas a gente se diverte. E faz o corre, né? Aliás, tio, vai rolar o lanche mesmo, né?

*Esse é o terceiro texto de uma sequência de entrevistas que fiz em 2013. Nelas, apenas pessoas sem nome, sem rostos, as sombras da sociedade. Prostitutas, mendigos, presos, meninos de rua, vendedores de doce do metrô.

21 janeiro 2014

Uma garota chamada S.

Eram duas da tarde. O calor agia como uma pressão sufocante que fazia o corpo se render ao sofá. A pele tentava respirar cada migalha de vento soprado pelo circulador. O suor eclodia visceral com a eminência da sede que afligia. Era um domingo vazio, quieto, calmo, tedioso. Pouca gente trabalha de domingo. Ela trabalha. Ou pelo menos tenta.


Dias assim os clientes fogem, disse. Eu fui apenas uma frustração, alguém querendo entrevistá-la. Porém, entre todas, era a que menos revirou os olhos. Determinou o preço; me dê algo para beber e eu converso com você, não tenho nada para fazer mesmo.


Olhos tão negros quanto sua pele, sorriso com dentes perfeitos, daqueles que deram a sorte de não precisar de um aparelho pelo qual jamais poderia pagar, S. diz que sua vida foi um desperdício da boa sorte.


Essa vida não é escolha, não para mim. Essa vida é burrice. Eu caí aqui porque sempre preferi a pior escolha. Não, não, não tem nada de droga. Eu não uso, sou mãe, está louco? Meu problema sempre foi outro. Meu vício era em cafajeste.


O tom assertivo, cheio de irritação, era de uma fala de quem não estava incomoda por falar, mas de quem se revoltava consigo mesma. A leitura de si e de sua realidade era muito clara para S., ela sabia perfeitamente quem era. Era tudo muito claro, cristalino. Ela enxergava cada passo errado e tinha plena consciência sobre a quem culpar.


S. está na faixa dos trinta e dois, trinta e três anos. Em sua carreira, é a idade da decadência. Ela mesma diz, que está ali por ser fruta usada, que seu tempo é de descobrir uma alternativa, algo que lhe permita sustentar três filhos de três pais diferentes.


Onde tudo começou? É difícil falar. Mas se tivesse que escolher uma memória onde comecei a destruir minha vida, vou dizer que foi aos 14 anos. Eu era a atrasadinha da minha sala. Sabe como é, escola pública, tudo uma zona, minha mãe era evangélica, eu achava que era também, até descobrir que Deus não ama as putas, mas tinha aquele negócio, né? A gente sempre olhava pros menininhos como se eles fossem alguma coisa. E homem, homem é sempre homem, quer te comer e pronto. E não era diferente naquela época, era até pior. Pior porque eu não tinha malandragem, não sabia como essas coisas acontecem. Daí, foi só um moleque me pegar na lábia dele, que eu virei acessório. Ele ia fumar um chá atrás da escola, eu tava lá. Ele ia jogar bola, eu ia atrás. Caguei com a escola, caguei com os estudos. Começou ali, por causa de homem. Por causa de homem eu larguei da vida enquanto o homem me descartava. É assim, e quando ele te larga e você largou tudo, quem é você?


É aquele momento que ela para, toma um gole de cerveja, e fica em silêncio por uns dois minutos. Pensativa, suas feições mudam. Seu rosto perde os traços de irritação para saltar a tensão num gritante linear de tristeza.


Meus professores até ali diziam que eu era inteligente. Meu pai queria até me colocar em faculdade, sabe? Fazia planos. Dizia que eu iria aonde ele jamais poderia ter ido. Sorte que o velho morreu cedo, senão eu matava ele de desgosto. Imagina, ele acreditava que eu iria longe. Se ele tivesse visto tudo que eu fiz comigo mesma, para aonde eu me levei, morria só de frustração. Mas era bom, sabe? Quando alguém acreditava que você poderia ser algo, algo maior, alguém melhor. Pena que eu nunca me vi como ele me via.


Quando eu engravidei? A primeira vez eu já estava bem mais velha, com 22. Não foi isso que estragou minha vida, meus filhos não têm culpa. E não, eu não engravidei por ser puta. Nunca vacilei com cliente, não faço as coisas sem (proteção). Foram todas cagadas mesmo. Não pelas crianças, elas não têm culpa. É cagada por causa dos pais.


A da primeira está morto. Porque o primeiro era bandido. Mas nem pra escolher bandido direito eu sirvo. Escolhi logo dos ruins. Ruim porque ele era ladrãozinho. E por isso morreu. Foi tentar roubar polícia, já viu né? O segundo não dá para falar muito. É um bêbado inútil. Por causa dele que eu virei puta. Não comecei cedo. Se tivesse, tinha aproveitado melhor, tinha ido trabalhar nas casas um pouco mais caras. Agora eu estou velha. Não estou mal, mas estou velha. Ninguém quer pagar R$ 200 numa neguinha de 30 anos. Tem muita lorinha de 20 que dá para esses caras para pagar a faculdade bacana. Se eu fosse uma puta esperta, tinha feito isso. Mas não, fui ser puta para bancar bêbado e sustentar dois filhos. Até que cansei de sustentar ele e me foder aqui, sabe?


E o terceiro? O terceiro? O terceiro fugiu. Ele é do Maranhão, então acho que ele fugiu para lá. Quando eu conheci, estava tentando largar. Ele queria que eu largasse. Disse até que iria assumir meus filhos. Ele era pedreiro, tinha vindo para cá trabalhar nessas construções de prédio, que estava tendo muito nos últimos anos. Aqui estavam pagando bem o peão de obra. Mas ele fugiu. Não, ele não fugiu de mim. Fugiu da cagada que ele fez. Ele errou alguma coisa numa obra e matou outro peão. Daí fugiu. Saiu um dia para trabalhar, daí eu soube que ele fugiu pela polícia. Nem passou em casa. Desapareceu. Nunca mais tive notícia. E me deixou com mais filho, aquele sacana.


E daí você voltou? Voltei. São três moleques pequenos. Minha mãe cuida para mim, mas como eu faço para pagar as contas? Eu não sei fazer nada. Poderia até aprender, mas quem vai dar um emprego para mim com mais de trinta na cara e sem nada na carteira? E se tivesse carteira, meu único registro seria puta. E ai, quem quer uma puta no escritório? Nem caixa de mercado eu seria se descobrissem o que eu faço.


Sabe por que? Não, não sei. Porque todo mundo come uma puta, mas ninguém quer a puta em casa. A gente é descartável, é por isso que vocês pagam. Não é pelo sexo, é para poder usar e jogar fora. O preço é para jogar fora. É o prazer de atirar na lata do lixo depois do que você queria.


Como assim? Qualquer menininha que você saia e coma, vai ter uma monte de coisa depois. Tem que conversar, tem que conviver e vocês homens não querem nada disso. Vocês querem apenas gozar e jogar fora. Depois que vocês comem, acabou, vocês já fizeram tudo que lutaram, vocês não conquistam uma mulher porque querem a mulher. Vocês querem usar a mulher e depois que vocês usam, não sabem mais o que fazer com ela. Ela parece que não serve para mais nada, não é? Você acha que eu estou errada? Se estivesse, não tinha tanta puta.



*Esse é o primeiro texto de uma sequência de entrevistas que fiz em 2013. Nelas, apenas pessoas sem nome, sem rostos, as sombras da sociedade. Prostitutas, mendigos, presos, meninos de rua, vendedores de doce do metrô.

28 outubro 2011

Coração e o Ingrato



- Até que ponto irei insistir para ter o seu amor? Como posso resistir? Eu fiz de tudo para ganhar você para mim, mas mesmo assim...

- Apesar de minhas rosas, por outros braços foi embora. Todos os meus versos, tudo o que eu soletro, todo o meu coro, nada, nada, nada fez você acreditar que era eu...

- Amei-a com toda intensidade, entreguei-a o meu coração, é a mais pura verdade. Eu tive tudo sem saber, mas por que insistir, se quanto mais eu persisto, mais eu me firo?

- Acalma! Se os erros foram no intuito de encontrar a verdade, qual é a maldade? Depois de ter vivido tudo aquilo, poderia ter ido aos confins, mas não, eu só fui até ali! Relaxa! Sou um coração dispendioso, mas sou amável.

- Se me atiro sobre lábio qualquer não quer dizer que não há sentimento. Na verdade, é apenas passageiro, é sombra sem parcela de responsabilidade. Deixa ser como será! Paixão que se dá, também se vai! Aprende, é apenas a vida, meu rapaz!

- Mas o que será, oh seu malévolo revoltoso que se atira ao revés sem mesmo me consultar! Apaixona e derrama sobre mim bálsamo envenenado, entorpecendo-me em delírios, beijos de saudade! Oh, sossega-te e não me atormentes mais!

- Veja bem meu caro, sem novos amores, qual é o sabor de continuar nesse cintilar ingrato? Se não vê o que sinto quando me atiro, não é culpa minha! Não é por qualquer coisa que dispenso a vertigem de um novo amor... Ah! Seus abraços, seus sorrisos, seus beijos e seus traços! Não se limite a pequenos sapatos, se realmente o que calças é quarenta e quatro. A pior tirania Humana é calçar sapatos apertados. Liberte-se desse mal, deixe-se viver, se atire, sinta, larga a mão desse esconder cruel! Aceite esse beijo sincero cheio de vida, sinta o mais intenso! Pois sem sentir, viver nada mais é que andar quando na verdade já se morreu!

- Coração, boêmio inexaurível, deixe de ser fecundo em atrocidades ao meu peito! Suas cicatrizes já me custam muitas verdades; explique a paz que não há, explique essa dor que não quer cessar! Canta-me por que da saudade que não acaba mais! O sentimento sempre me traí com a solidão! O que me sobra são lágrimas, nada de bom me traz esse sentimento chamado paixão!

- Meu prezado, é tão simples, tão fácil, só você não vê que aquela bela dama, da qual você menospreza o meu parecer, conquistou você com leves beijos, jeito extrovertido, levou-me aos maiores delírios; e nesse compasso você seguiu comigo e, hoje, não há mais solução: ou se entrega, ou se entrega meu caro turrão!

- Não acredito em tais palavras, não será você a me ensinar aquilo que deveria ser. É um desiludido, perdido em tardes de domingo, mal sabe o que faz! É um vagal por completo, tenta iludir-me nesse momento incerto em que não sei o que fazer. Pensa que sou o quê? Acha mesmo que estou eu apaixonado? Acha que eu sou o que meu caro? Não me entreguei com tal facilidade, não serei eu o primeiro a cair sobre essas suas falsas-verdades. Deixa-me em paz e leva contigo o que não me satisfaz.

- Veja, o sentimento existe, mesmo que você não acredite. Resista o quanto puder, pois o tempo o dirá, a verdade, qual é. Se você não quer se atirar nesse amor, a derrota será sua, a dor será minha, as lágrimas e as conseqüências por você serão todas sentidas. Apesar de tudo, vê se me escuta da próxima vez, pois ela já se foi e você ficou sem ao menos ganhar dela um adeus. Comporte-se e quem sabe um dia eu encontro outro amor vertiginoso e incerto, porém terno, para que um dia o coração não seja o seu amigo indigesto! Dei-lhe o mais puro sentimento, não é minha a culpa se não fizeste nela a verdadeira e sutil mágica.

- Faça com que ame, faça com que sinta, não perca tempo! Toma um pouco de gratidão, pois, na verdade, sem mim sua vida não tem razão!

26 outubro 2011

Terapia


- Boa tarde, eu sou doutor Silveira, pelo que li aqui em sua ficha, você é o Paulo, correto?

- Correto, doutor.

- Então, Paulo, por que fazer terapia?

- Eu pensei que você fosse me dizer isto, afinal, não sou eu que recebo por estar aqui...

(Cinco minutos de silêncio)

- Então, o que te atormenta

- Nada.

- Nada?

- Não exatamente.

- Hum.

- Doutor, não sei mais o que fazer. É uma garota. É a garota.

- Fale-me sobre ela.

- É a guria do ônibus, doutor. Ela está me enlouquecendo, doutor, eu não agüento mais.

- Siga...

- Ela parecia ser a coisa mais linda do mundo, aquele sorriso mascarado, escondido, tentando disfarçar, o jeito solto de rir, aquele jeito meigo de se aproximar...

- E por que você não a agüenta mais?

- Doutor, era tudo mentira! Ela é uma ciumenta! Ela tem ciúme das minhas amigas, das minhas primas, até da minha irmãzinha ela tem ciúmes!? Encana com o meu futebol de Domingo, não pára de falar que eu a troco pelos meus amigos...

- Bem, o ciúme dela realmente não é normal, mas vocês já tentaram conversar? Com certeza ela tem algumas qualidades também, então será que não seria o caso de tentar contornar esse ciúme todo?

- Sim... Ela tem qualidades. Ela tem um bom gosto musical, nós temos boas conversas, ela cozinha muito bem, se interessa bastante por mim...

- Viu só, não é o fim do mundo!

- Doutor, me escuta, é o fim do mundo sim! Ela é meio doida. Às vezes ela enlouquece e inventa de querer discutir a relação e vive fazendo aquelas perguntas fatais...

- Perguntas fatais?

- Doutor, o senhor é casado?

- Sou.

- Então, não há como você não saber...

- Não?

- Claro que não! Sua esposa já perguntou ao senhor se está gorda? Já encanou alguma vez quando o senhor disse “Meu bem, como você está bonita HOJE”? Ou “O que você acha desse vestido”? Ainda o “Você acha minha amiga bonita”?

- Huuuuum... Sim, entendo. Realmente, são perguntas fatais. Nem gosto de lembrar, ontem à noite a Débora me perguntou o que eu achava da mãe dela passar alguns dias conosco...

- Nossa, doutor, não sabia que o senhor também sofria com isto!?

- Rapaz, todos nós sofremos.

- Então, doutor, a pior parte é a confusão, sabe? Às vezes eu não sei se a odeio, se a amo, o que realmente sinto por essa bendita!?

- Fale mais.

- Quando ela não está perto, eu sinto saudades, sabe, a falta mesmo, a presença dela já faz um marco em minha vida. Mas quando ela chega, ela me enche de ódio, de raiva, fica tirando as coisas do lugar, reclama que o meu quarto está uma zona, que eu deveria levar as roupas para o cesto de roupa suja e não fazer o meu montinho ao lado da cama. Reclama que tem muita coisa na mesa do computador, que eu rabisco os livros... Eu praticamente quero esganá-la e jogá-la pela janela.

- A Débora também faz isto comigo. Eu sei como é. Dá vontade de tapar a boca dela com um pote de formol, para que ela apague por alguns dias, até que esse encosto saía dela.

- É doutor. Mas sabe... Depois isso passa, ela senta na minha frente e abre aquele sorriso e não tem como não me derreter. Eu odeio como ela faz o meu ódio desaparecer, não dá pra ficar bravo com ela; ela simplesmente faz tudo sumir, o céu estava cinza, ela olha lá pra fora e vem um arco-íris.

- Vem cá e como é o nome dela?

- O nome dela? Bem, isso eu não sei.

- Como não sabe?

- Então, doutor, ela existe. Mas tudo isso que eu te falei nunca aconteceu.

- Não?

- É que todo dia eu pegava um ônibus pela manhã, bem cedo. Ela estava lá. E eu a olhava, ela me olhava, mas eu sempre fui muito tímido, então, nunca sentei ao lado dela, nunca tive a coragem de dizer um “oi” sequer, nem jogar aquelas conversas fiadas de “como o tempo está feio hoje”. E agora, nem eu, nem ela pegamos aquele ônibus e eu acho que perdi uma das maiores oportunidades de minha vida.

- Então, o seu problema é frustração...

- Não, doutor. Não sei se o senhor percebeu, mas o meu problema é com a imaginação, um tanto quanto fértil... E alguém que imagina esse tipo de coisa precisa de terapia, não acha?

24 outubro 2011

Cotidiano II


Seis e dez da manhã, o despertador grita e, com a delicadeza de um paquiderme, ela o desliga. Mais um dia como outro qualquer.

O banho morno pela manhã. Graças ao Pai pelo gás encanado, pensa. Faz de tudo para não molhar um fio de cabelo; não confia na toca, acha que esse plástico vagabundo engana. Não confia muito na propaganda do sabonete, por isso, compra o que sua mãe sempre comprou ao invés do que parece ser melhor na propaganda. Mas testar, nunca testou.

Ao sair do banheiro, enrolada a duas toalhas enormes, confere o esmalte, apanha os cremes e se assenta à penteadeira. Lá vem toda uma seqüência usual. Creme às pernas, ao rosto, às mãos, ao cabelo, creme ao creme. Muito creme.

Após fechar os vasilhames apanha a escova. Escova a direita, a esquerda, e escova mais um pouco. Na realidade perde uns dez minutos escovando os cabelos. Quando se convence de que melhor não fica, vai se vestir. Nessa brincadeira já são sete e vinte, e as oito ela tem que bater o cartão.

Vai à cozinha, abre a geladeira, pega um suco qualquer, nem presta atenção na cor da caixa, toma sem sentir o sabor. Que sabor? É tudo sintético. O suco de limão parece o de groselha e tem gosto de uva, o de uva parece o de limão e tem gosto de groselha, e o de groselha parece o de uva e tem gosto de limão.

Come uma maçã e se dá por satisfeita. Um café da manhã esplendido, ao menos para os seus padrões de dois minutos.

Por sorte, mora a dois quilômetros e meio do trabalho. Iria a pé, se não houvesse um calor infernal, se sua produção não fosse toda devastada pelo cruel vento que há lá fora. Vai de carona. Ela detesta o rapaz que dirige o carro. Ele sempre faz cantadas bobas, já roçou um dedo em sua coxa ao trocar de marcha e por isso levou um tapa.

Labutava ao trabalho, secretária executiva não tem vida fácil, principalmente quando seu patrão é egocêntrico e crê que sua secretária é uma agenda ambulante que deve tomar conta dos detalhes de sua vida. A secretária é a responsável para que tudo dê certo nesse caos. Ao menos, ele pensa que o mundo funciona assim. O mundo pode até não funcionar assim, mas seu escritório de contabilidade...

Dentro de toda essa correria, o escritório aos poucos se esvazia e o patrão deixa sobre sua mesa uma série de arquivos para que ela organize, isso sem falar na agenda do dia seguinte para finalizar.

Ter que fechar o escritório era algo irritante, muito desgastante, não era a sua função e ficar até tarde, não ter tempo para si, era revoltante. Revoltante até o dia que descontava o contracheque.

Compensa ser explorada se pagam bem, não? Ao menos, todos seus vícios eram alimentados. Podia comprar suas roupas, bolsas sapatos, maquiagem, todo o luxo que alimentava seu vício vaidade podia ser feito sem grande peso na consciência. Pois algum peso sempre havia, principalmente quando aparecia no dia vinte a fatura de seu cartão de crédito.

Mas até então seu trabalho seguiria a dar orgulho a tédio. Documentos e reuniões a marcar, o silêncio e a escuridão de um escritório vazio. Ela podia até ouvir a rua zombar de sua solidão, enquanto se prendia em algo que detestava fazer. Ela odiava escritório. Em suma, acredita que qualquer pessoa que goste de estar num escritório não é normal.

Ah! Como ela gostaria de estar à beira-mar, passeando descalça com os pés beijados pela ponta do oceano que desemboca no último tocar na areia, ouvir a onda quebrar. Ah! Como ela queria! Pena que não podia.

Sentia o desejo de desaparecer, de mudar, de sumir de toda essa pugnação indigesta por ninguém que realmente faça parte de sua vida. Está cansada em esfacelar-se por estranhos.

O emprego era bom. Perto de sua casa, bom salário, seguro, com todos os direitos assegurados e todos os conformes em dia. Mas era um saco.

Terminou de pensar, agora faltavam apenas umas dez páginas para organizar. Mas para que organizar? O patrão nunca olhava os arquivos!? Ficavam num andar a baixo, empoeirando sobre as prateleiras. Para que tanto trabalho?

Para que a poeira tivesse seu espaço, afinal, poeira coitada, malograda por todos, precisava do seu espaço! Mas para isso a pequena tinha que ficar até mais tarde lá no escritório, fazendo o trabalho que sobrou e que ninguém realmente precisaria fazer. Era por caridade a cada tufo de poeira carente! Ação social de uma empresa, incompreensível o mau gosto com que a guria levava essa obra...

Depois de pensar mal de Deus e do mundo, ela acaba. Tranca tudo, e sai. Vai andando para casa, em meio ao silêncio da ausência do trânsito que já acabou há algum tempo. São quase dez da noite.

Ao passar frente à padaria resolve tomar um café e comer algo já que não há janta em casa, já que não está disposta a preparar nada nessa hora.

Come uma pequena refeição e um chocolate na sobremesa. Chocolate, segundo ela, dependendo de qual for marca, é tão bom quanto sexo. Bem, eu nunca vi nenhuma mulher a ter orgasmos comendo chocolate. Mas se for ela quem diz, quem sou eu para discordar?

Após ter seus delírios do sabor ao leite, vai descendo a rua para enfim chegar a sua casa. O sinal está amarelo, longe vem um carro preto, meio devagar, mas ela nem o olha, apenas mantém os olhos fixos ao farol.

É atropelada. Caída ao chão, passa alguns minutos desacordada.

Ao acordar vê um rapaz olhando-a fixamente. Ela se enche de raiva, vê que seu vestido rasgou, que sua blusa perdeu uns dois botões, ficara suja. Sem falar nos arranhões nos braços e pernas que ardiam.

Vendida ao ódio, só queria degolá-lo, até que ele concebeu seis palavras que lhe desconcertaram: “Meu Deus, como você é linda”.

21 outubro 2011

Cotidiano I


 Ajeitou o paletó. Acertou a gravata. Passou a mão aos cabelos e achou que estava ótimo. Olhou-se e viu-se ao espelho, criticou-se por um instante e gostou. Pegou a pasta que estava aberta sobre a cama e colocou alguns papéis que estavam junto de seu livro predileto, na cabeceira.

Chega à cozinha, pega o café de ontem, ainda frio, toma-o. Olha o jornal por cima, não vê nada de relevância verdadeira, apenas mais desfalques, picaretagem ou viagens de lideres para falar de absolutamente nada com outros líderes. Nada que intervenha em sua vida e quebre o cotidiano.

Dá um afago no cão. Larga o jornal. Esqueceu o café pela metade, estava horrível, amanhecido, frio. Não comeu o pão, deu ao cachorro, nunca tem fome pela manhã; sua mãe sempre deixa o pão que, se comesse, lhe embrulharia o estômago.

Abriu a porta da rua, apagou a luz, apesar de ainda não estar claro, sua mãe tinha a mania de deixar as luzes acesas à noite quando ia dormir. Olhou para casa por desencargo de consciência e fechou a porta.

Desceu os degraus, nem os reparou, quase tropeçou por desleixo, segurou-se ao corrimão. Esbravejou, recompôs-se e entrou no carro e foi-se.

Meia hora depois, sua mãe se levanta. Vê migalhas aos pêlos do cachorro, sorri, já sabe que seu filho deu o pão outra vez ao cão.

Vai à mesa, recolhe a xícara e o jornal, arruma a mesa, faz duas torradas, suco, um pouco mais de café, deixou a mesa posta.

Levou o cachorro para o quintal, colocou a ração que o cão detesta, mas tem que comer, à vasilha. Vai ver o pão adormecido é tão mais saboroso que aquela coisa marrom que o cão fique com nojo da coisa marrom só de ver. O enjôo de um é o tesouro do outro.

Quinze minutos depois seu marido acorda, senta-se a mesa, dá a ela um afago e apanha o jornal sem tocar a comida, da forma como ela detesta, pois, segundo ela, o jornal é sujo e comer com mãos sujas de jornal é nojento. Ele acha isso uma bobagem. Já foi uma dificuldade convencê-lo a lavar as mãos antes de comer, diga-se então não ler o jornal à mesa. Sob suas tenras palavras, do alto de seus sessenta e oito anos, isso é tudo uma viadagem.

O pai é uma figura interessante. Machista deveras, militar da reserva, endoidou quando o filho cogitou ser vegetariano, para ele, essa história de comer apenas folhas é coisa de maricas. Só aceitou a idéia de o filho ter tal prática quando soube que era proeza do rapaz para arrastar asas a uma bela guria.

O jovem era mulherengo. Era. Depois que se enveredou em certos lençóis e acabou se traindo pelo apego, descobriu o que é sofrer nas mãos de uma mulher. Depois disso desistiu um pouco. Encheu a cara umas duas vezes, mas não conseguiu olhar pra mulher alguma, só queria esquecê-la.

Leu todo o jornal, xingou o presidente até a sétima geração, isso porque lhe faltaram termos, leu sobre o próximo jogo do seu Flamengo, que apesar de estar aos trancos e barrancos, é o seu Flamengo.

Largou o jornal sobre a mesa, pegou um copo de suco, um pedaço de bolo e um pão; foi para a sala assistir tevê. Assistia a tevê e a criticava, falava da pouca vergonha, da safadeza e das bobagens ditas. Odiava, mas assistia, odiava, mas sem ela, viver não conseguiria, pois todo dia são os mesmo programas, as mesmas birras, as mesmas coisas. E sem essas coisas, seu dia vazio ficaria.

A senhora segue limpando o domicílio, seguindo a rotina, arruma e limpa os quartos, a sala, cozinha, banheiros, lava as roupas, vive em função da casa. Passam-se os dias, passa-se a vida e ela continua ajeitando a almofada na sala.

O rapaz logo chega ao trabalho.Um escritório chato, cheio de papéis pra lá e pra cá, por todos os cantos é papelada, burocracia; é forma que encontramos de organizar o tumulto de nossas vidas, uma forma bela de construir a desconstrução, desordem corrigida pelo acaso que muda nossas vidas.

Trabalha, trabalha e trabalha, labuta e cai o suor. Tudo para passar e esquecer a insignificância daquilo que fazia, carimbar papel. Lia as baboseiras escritas por advogados que defendiam as picuinhas dos outros, seu dia era apenas ler e carimbar, carimbar e ler.

Seus colegas tiravam-lhe sarro. Nenhum deles lia nada, olhavam por cima, só liam o que acham engraçado para comentar na salinha do café. Conversavam das bobagens alheias, de como a nova secretária do dono do escritório é gostosa, que o jogo de quarta-feira foi horrível, marcam um churrasco no domingo, que nunca se realiza, combinam de tomar algo depois do trabalho, que sempre acontece.

Cinco horas, horário sagrado, intocável, apenas infringido quando o chefe ameaça com horas-extras, as pastas pretas com papelada chata, tão odiadas.

Logo o trabalho acaba e todos vão matar o cansaço na mesa do bar. Música, alegria, bebida, conversa vaga em todos os cantos, garçonete com uma minúscula minissaia, desafrouxadas gravatas, paletó no carro, sem os sapatos do dia inteiro, roda de samba, cantoria, alivio.

Pegou suas chaves e saiu. A rua vazia, tímida. O rapaz morava longe, mesmo quando o tráfego ajudava, a casa demorava a chegar. Por um acaso foi mudar a música, abaixou-se, passou ao sinal vermelho e uma jovem atropelou.

Saiu do carro, desesperado, desarrumado, desajeitado, trocando os passos, olhou-a como se fosse à última, admirou-a de ponta a ponta, até que abriu seus olhos e lhe disse “Babaca”.